Estou de ressaca… muitos dizem “luto”, eu prefiro o termo “ressaca” e, note-se, não bebo nada alcoólico há bastante tempo.

Como todos os brasileiros, bebi do “ópio do povo” e segui acreditando, apesar das dúvidas em relação a este desfecho. O que não seria previsível era a tamanha humilhação que vivemos, a ideia de sermos vistos nos próximos 100 anos como pentacampeões e como a superpotência que perdeu pelo maior placar já visto na história das copas do mundo.

O que faltou? O que aconteceu? O que não aconteceu todos sabemos… Notem as declarações dos austeros alemães, que desconcertados não sabiam como defender o indefensável… eles tentavam encontrar meios para dizer que “os brasileiros não mereciam isso em seu país”…

Penso que não traremos o Hexa tão cedo em virtude de nossa falta de planejamento frente ao inevitável. O Brasil, infelizmente, depois de tomar esse “chocolate” vai procurar culpados como sempre, e como sempre manterá esses culpados à frente do que vale realmente a pena ser revisto. Vai buscar onde deveria simplesmente baixar a cabeça e dizer: – Erramos. Desculpem, vamos trabalhar para melhorar.

Vejamos se a teoria da Gestão de Continuidade de Negócios se aplica aqui, sim, teoria da GCN, algo que é tido como presente apenas no mundo corporativo dentro das empresas e dos CPDs… será que ela se aplica aqui? – SIM!

Vamos considerar o que o nosso Scolari deveria ter visto antes. A análise deste processo deve ser ampla e temos que avaliar com olhar crítico, apesar das lágrimas e desse gosto amargo na boca.Um torneio como a copa do mundo, curto e direto, deve ter elementos de surpresa e elementos de experiência. Entretanto, faltaram “peças” e “peças não adequadas” foram levadas para a Granja Comary… por quê? Bem… isto deve ser perguntado ao nosso técnico.

A partir daí, passamos a avaliação de impacto ao negócio, neste caso: o time. A criticidade era conhecida nos amistosos, já que o Brasil não jogou eliminatórias e o nosso meio de campo não existia, sabendo disso, o especialista em continuidade devia ter levado duas ou três peças com conhecimento específico nesta função.

Seguindo a teoria da GCN, considerando o cenário da última partida, vejamos as estratégias: No mínimo, um plano de contingência deveria ter sido levado a efeito aos 30 minutos do primeiro tempo do jogo contra a Alemanha, entretanto, não tínhamos as peças no banco, e não vingaria, infelizmente, depois da perda do nosso craque, o único do time. Em 100 anos de história nunca tivemos tão poucos craques no elenco, como se diz na GCN: Quando se tem um, não se tem nenhum.

Veja também:

Avançando um pouco mais, ainda amparados pela teoria, escrevemos planos, neste caso vejo três:

1)Plano de Gestão da Crise;
2)Plano de Continuidade Operacional;
3)Plano de Recuperação de Desastres.
Comecemos pelo Plano de Recuperação de Desastres (PRD): Se tivéssemos as peças necessárias para alterarmos o panorama, ainda assim precisaríamos de um plano onde estas peças entrassem de fato e tivessem condições de jogar, ou seja, incluir novos jogadores que modificassem a maneira de jogar colocando a bola no pé. Essas “novas peças”, com experiência reconhecida trariam a estabilidade, inclusive emocional, necessária a equipe, podendo mudar o cenário .

Na Continuidade Operacional, o plano devia ter colocado a bola do lado da Alemanha e ter tido um pouco da manha latina, parando o jogo para que o apagão visto não tivesse ocorrido. Parar o jogo e deixar as coisas mais no nosso controle poderia ter mudado o panorama. A cartilha de 2002, livro de cabeceira do Felipão na época: A Arte da Guerra, explica isso o tempo todo, em todos os seus capítulos. Continuidade Operacional para o futebol seria isso.

Em termos de Gestão de Crise vejo os 15 minutos de vestiário no intervalo. Notem o comentário do que aconteceu ontem na declaração do nosso técnico: “- Vejam, já perdemos, vamos organizar as coisas para fazer alguns gols e não sairmos com essa imagem tão ruim…”. Viajemos agora para 1970 e o que aconteceu no mesmo vestiário quando o Brasil perdia de 1 a 0 para a Itália… um Pelé bravo chutou armários e disse pra todos : “VAMOS GANHAR ESSA…”

Sim, você vai me dizer: “Cara, estava 1 a 0, ontem estava 5 a 0!”. Amigos, quantos gols fizemos naquele jogo de 70 no segundo tempo? 4 ! Porque não? pergunto… porque não podíamos ter feito 5 ontem? Estávamos entregues sim, mas se tivéssemos a motivação correta, poderíamos ter empatado. A gestão de crise neste momento prova que o conformismo, padrão no Brasil nos últimos anos, nos fez perder o sonho, poderíamos de fato não termos chegado ao empate, mas a luta e a garra, teriam o gosto de orgulho porque tentamos, não porque nos entregamos.

7 a 1 não foi um placar justo e a Alemanha sabe que não fará isso de novo, mas não foi a Alemanha que fez os 7 gols, 4 nós demos pra eles. Levar 3, confesso, eu esperava, adoro copa e acompanhei quase todos os jogos, pude perceber que a Alemanha, neste mundial, teve o controle sempre e foi surpreendida quando atacada, mas apesar de esperar 3 gols do adversário, acreditava que o Brasil podia ter feito alguns, deveria ser uma grande partida!

Por fim, voltando à GCN, chegamos aos testes, sim, os treinos, notem que o Brasil não treinou neste mundial. As outras 3 Seleções desta semi final jogavam num dia e no dia seguinte, depois de descansar pela manhã, treinavam à tarde. O nosso país deu folga em TODOS os jogos e fazia “rachão”, cheguei a ouvir da boca de alguns que “não tem o que fazer, agora é só conquistar um bom clima”… ABSURDO ! Treinar faz parte do futebol e o jogo só é bom depois de muito treino bem sucedido, ou na linguagem da GCN, só se tem sucesso em um incidente desconcertante depois de muito teste bem sucedido.

Podemos ver que as leituras daqui pra frente, para estes bem sucedidos e milionários jogadores e treinadores, deviam ser as do mundo corporativo… pois quando se depende do salário e da empresa que o abriga, se tem um pouco mais de respeito pelo que se tem de melhor. O Brasil, amigos, de verdade, não é mais o país do futebol há muito tempo, é o País do conformismo que dorme sobre os louros dos que muitos conquistaram no passado. Hoje a realidade é bem diferente, chegamos à fase final mas não temos competência para dar o próximo passo, acho que isto deve ser pensado e discutido.
Pra mim e para muitos apaixonados pelo futebol, essa ressaca vai demorar a passar. Volta o Brasileirão e os desencontros das idas e vindas de jogadores.

Faço aqui um apelo ao futebol e seus artífices: – Humildade amigos! Humildade e abaixo o continuísmo. Que venha a continuidade para o futebol, para as organizações e a vida de todos.

continuidade MEME II

Termino fazendo justiça aos jogadores que, mesmo não tendo sido todos bem escolhidos, fizeram o que puderam. Levantem a cabeça e lembrem-se que a vida é mais, muito mais que um jogo de futebol, se quiserem fazer algo hoje e pelos próximos anos às crianças que se sentiram humilhadas ontem, por favor, tenham “fair play” agora: baixem a cabeça, peçam desculpas se sentirem que precisam, mas não tentem ganhar essas crianças com bravatas. O futuro poderá ser brilhante para os títulos se hoje, digo HOJE, tivermos a humildade de lembrar que mesmo não tendo mais um Pelé ,podemos ter atitude suficiente para admitir que seremos lembrados por esse 7 a 1 de ontem e por tudo que faremos daqui pra frente, além do que já fizemos, isso ninguém mais nos tira,  vamos fazer um futuro melhor!

 

Bons e contínuos ventos a todos!

William Alevate

William AlevateEspecialista da Módulo Security, autor do livro Gestão da Continuidade de Negócios _Ed. Elsevier, especialista em GRC, incluindo todas as disciplinas de Gestão de Segurança da Informação, tais como Políticas, Criação e Desenvolvimento de Áreas de Segurança da Informação, Gestão da Continuidade de Negócios, Governança Corporativa, Governança em Segurança da Informação e Gestão de Pessoas.Professor especialista de GCN nos cursos de Pós Graduação” da UNICID, doMackenzie e do VERIS – IBTA, desde 2008Co-autor do livro “formação de Security Officer 1 (MCSO 1)” da Módulo e autor do livro “Você e a Continuidade de Negócios” (não publicado – utilizado em suas aulas e ações acadêmicas). Publicou dezenas de artigos sobre Gestão de Segurança e Continuidade de Negócios em veículos especializados. Ministrou palestras em eventos focados em Segurança, Continuidade de Negócios nos mais diversos fóruns do mercado (SUCESU, FENASOFT, CNASI, GRC Meeting, Executive Meeting, Security Week e eventos do Governo Estadual (SP, RJ, RS) e Federal, entre outros eventos de relevante importância.

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Estou de ressaca... muitos dizem “luto”, eu prefiro o termo “ressaca” e, note-se, não bebo nada alcoólico há bastante tempo. Como todos os brasileiros, bebi do “ópio do povo” e segui acreditando, apesar das dúvidas em relação a este desfecho. O que não seria previsível era a tamanha humilhação que...