Nos anos 80, um grande clássico da música brasileira cantado pelo inesquecível Gonzagão dizia mais ou menos assim: “eu pedi pra chover, mas chover de mansinho, pra ver se nascia uma planta no chão”… Naquela época, o Sudeste era a região procurada por quase todo nordestino que almejava uma vida melhor, longe da seca… Trinta anos se passaram e a música, hoje, poderia se confundir com a eterna Sampa, de Caetano Veloso: eu pedi pra chover, “quando cruzei a Ipiranga e a Avenida São João”…

Em 6 de fevereiro, pela segunda vez, o prefeito Fernando Haddad pediu ao Governo do Estado, estendendo aos prefeitos das cidades atingidas pela falta d’água na chamada “grande São Paulo” e apelando até ao Governo Federal, um Plano de Contingência… Ele, inclusive arriscou a definir do que se trata:

Você cria cenários  e os submete à discussão e criação de Planos que contornarão os problemas que todos conhecemos. Mas não adianta querer fazer esse trabalho daqui a 60 dias, tem que ser já” – disse o Prefeito de São Paulo –

Ele está certo. A situação só faz piorar e já estima-se que serão necessários três anos, com chuva coerente às características hídricas da Região Sudeste, para que este problema seja sanado. Estamos apenas no início do processo e, se o início está sendo assim, o que diremos quando não pudermos mais pensar nos cenários pois eles serão parte da realidade, e os Planos de Contingência serão o cotidiano, tanto na vida dos cidadãos quanto na operação das cidades que não tenham o devido planejamento.
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Estatísticas internacionais, versando o tema, apontam que não ter preparação alguma é a pior estratégia que se pode adotar, pois, no despreparo, qualquer ação pode ser mais custosa e até vir a trazer problemas diferentes, inesperados e mais difíceis de resolver. Tomemos como exemplo um episódio atual : muitas famílias armazenam água de chuva para lavar roupa, louça e casa de modo geral, aumentando exponencialmente a quantidade de mosquitos da dengue, que também trazem ao ser humano a Febre Chikungunya, com sintomas similares aos da dengue, porém mais difíceis de curar.

O que será feito do problema quando não houver água para todos? Embora seja uma ameaça pré-anunciada, mesmo que o desmatamento na Amazônia e o resfriamento das águas do Oceano Pacífico sejam seus reais causadores, e, apesar de continuarmos não tendo estatísticas para praticamente nada em termos de contingência e continuidade de negócios no Brasil, não podemos nos furtar a reconhecer a realidade e fazer alguma coisa agora – pois, daqui a pouco tempo, o tempo não será mais favorável.

Não se trata só da falta do banho e da água para beber, o que por si só já é bastante crítico e problemático, mas da água vital para a fabricação de toda a sorte de produtos nas indústrias (localizadas em sua maioria nos estados do Sudeste, desde os primórdios do Brasil), para os hospitais com seus pacientes acamados, empresas de prestação de serviço público sem recursos para atuar, bancos com seus centros de processamento de dados dependendo da água para resfriar seus supercomputadores,  supermercados apinhados de gente querendo comprar água. Em um cenário extremo, ainda podemos imaginar a exploração dos donos de poços artesianos cobrando alto por aquilo que até bem pouco tempo se tinha à vontade no apertar de uma descarga e no girar de uma torneira. Por fim, pensem na dificuldade que será tratar os defensores públicos (polícia, bombeiros, agentes de saúde pública) e toda a população sem a tão preciosa água.

– E esse tal Plano de Contingência que o prefeito fala, vai resolver o problema? – perguntam-se o Paulista e o Paulistano, enquanto criam engenhocas para abrigar a água da chuva para poder lavar seus quintais, seus carros e dar de beber às criações.

– Sim, resolve a consequência, já que o problema só pode mesmo ser resolvido por São Pedro, esperando passar esta estiagem tão conhecida de tantos mas tão cruel com esta população da região que é conhecida como “coração e motor do Brasil”.

Torna-se importante, portanto, considerando todas as situações, argumentos e visualizações possíveis, entendermos um pouco o que é esse tal Plano de Contingência…

Trata-se do coração de um processo de Gestão da Continuidade de Negócios, assunto que tratamos no mercado corporativo e de TI há 30 anos e sobre o qual publiquei o livro: Gestão da Continuidade de Negócios. Contingências, como relato no livro, são alternativas. Trata-se da atuação de “contingente” visando contornar ou resolver problemas de ordem operacional.
Esses problemas operacionais advêm da falta (ou indisponibilidade) de ativos (coisas palpáveis que sustentam as organizações e os negócios), tais como as próprias pessoas, os computadores, seus sistemas, os ambientes físicos e os insumos que os baseiam, como neste caso, a própria água. Contingências são, portanto, estratégias ou abordagens que se criam para buscar soluções dentro de cenários mais ou menos complicados e complexos, como ensinado pelo alcaide paulistano.

Veja também:

As estratégias (contingências) são as respostas ao “o que fazer?” e devem sempre obedecer aos requisitos de “atendimento ao cenário proposto”; “viabilidade técnica”; “melhor relação custo x benefício”; “facilidade de conjunção a outras contingências que as complementem” e devem ser, tão logo sejam criadas, publicadas, orientadas, instruídas e ensinadas a todos que dela fizerem parte ou dela tomarem resultados para que haja acerto na sua usabilidade no enfrentamento da crise. A melhor maneira de fundamentar tal conhecimento para atender à capacitação das pessoas é a elaboração de planos de continuidade (que respondem ao “como”) desenvolvidos, editados e publicados em formato de cartilhas que possuem linguagem fácil de compreender, assim o usuário comum pode ter suas próprias contingências em complemento às realizadas por governos, empresas e organizações em geral.

Óbvio que os governos municipais, estaduais e federal necessitam criar seus planos, assim como todas as empresas que possam vir a sofrer problemas em virtude da falta de água, nestes casos, similarmente ao que descrevi acima, se recomenda a criação e manutenção de um ambiente de crise, com planos estratégicos focando em “pronta resposta” e “monitoramento da situação” em suas fábricas, agências, lojas e secretarias. Este plano de Gestão de Crise também é parte do conceito de Continuidade de Negócios e se estabelece como um processo apartado, onde as informações de cunho sigiloso se preservam ao grupo que delas necessite e que com elas tome decisão, deliberação e solução para os problemas advindos.

A crise é um fato e ela será longa. Duvidar disso, neste momento, ninguém mais duvida, mas ignorar que os problemas aí estão, sem fazer alguma coisa em termos de planejamento, pode ser a diferença entre vida e morte, de empresas, governos, organizações e, por que não dizer, de pessoas dependentes deste que é o ativo mais importante da vida – a água.

Historicamente – e felizmente – todas as crises passam e esta também passará. Esperamos que nesta, talvez a mais pungente de todas, pelo envolvimento de toda a sociedade, sirva como aprendizado para outras futuras realidades e demandas similares.

William Alevate
William AlevateEspecialista da Módulo Security, autor do livro Gestão da Continuidade de Negócios _ Ed. Elsevier, especialista em GRC, incluindo todas as disciplinas de Gestão de Segurança da Informação, tais como Políticas, Criação e Desenvolvimento de Áreas de Segurança da Informação, Gestão da Continuidade de Negócios, Governança Corporativa, Governança em Segurança da Informação e Gestão de Pessoas. Professor especialista de GCN nos cursos de Pós Graduação da UNICID, Mackenzie e do VERIS – IBTA, desde 2008. Coautor do livro Formação de Security Officer 1 (MCSO 1), da Módulo e autor do livro Você e a Continuidade de Negócios (não publicado – utilizado em suas aulas e ações acadêmicas). Publicou dezenas de artigos sobre Gestão de Segurança e Continuidade de Negócios em veículos especializados. Ministrou palestras em eventos focados em Segurança, Continuidade de Negócios nos mais diversos fóruns do mercado (SUCESU, FENASOFT, CNASI, GRC Meeting, Executive Meeting, Security Week e eventos do Governo Estadual (SP, RJ, RS) e Federal, entre outros eventos de relevante importância.

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